domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mobilizações Paradoxais

Ontem primeiramente um amigo por e-mail, e depois os telejornais, me chamaram a atenção sobre o paradoxo existente entre as mobilizações populares no Egito, exigindo a renuncia do presidente Mubarak, e as mobilizações de torcedores do corinthians exigindo a saída do Ronaldo e outros jogadores da equipe, após serem eliminados da Libertadores da América.
No Egito a população mobilizou-se indignada com as condições de saúde, segurança, educação, etc. e se pôs a rua para tirar do poder um presidente que a três décadas usurpa o poder naquela nação, é a História do tempo presente se construindo diante dos nossos olhos, e já teve quem afirmou que ela estava morta.
Já no Brasil, mesmo gozando de problemas estruturais nas áreas de segurança, saúde, educação tão graves quanto aqueles do Egito, o único motivo capaz de unir milhares de pessoas à se mobilizar em torno de uma causa comum é futebol, torcedores se reuniram para agredir e cobrar a saída de jogadores por causa de uma eliminação de um campeonato. Sei que o futebol é movido pela paixão, e nem quero me desfazer dela, porém seria este "problema" mais importante que a falta de escola, hospital e segurança que os próprios torcedores sofrem? Pois garanto que não tem nenhum burguesinho indignado fazendo protesto.
O sistema capitalista é muito engenhoso, e suas engrenagens estão meticulosamente articuladas, pois por um lado o trabalhador recebe o menor nível de instrução possível, o essencial para executar seu trabalho; por outro lado recebe um baixo salário que reduz suas opções de lazer, tornando o futebol uma opção barata e acessível a todos, tanto para se praticar, onde qualquer latinha e duas pedras resolvem o problema, como para se consumir sendo através das grandes redes de televisão que destinam boa parte do fim de semana a este esporte, como indo aos estádios que sempre tem um lugar ruim com preço acessível as classes mais baixas.
Assim esta incrustado em nossa sociedade um sistema, que como tudo no capitalismo, alimentado pelos trabalhadores e que age contra eles, pois a paixão pelo futebol faz com que os trabalhadores empenhem suas energias e poder de mobilização em torno de seus clubes, que na verdade são cada vez menos seus, pois os clubes se tornaram grandes corporações capitalistas onde o lucro é único objetivo e não pensa mais em torcedores e sim em consumidores.
Lógico que o futebol mercadológico, não é o único responsável pela apatia de nossa população em relação as questões sociais e politicas, e muito menos que o Egito é um exemplo de capitalismo que possibilita instrução e formação a classe trabalhadora, as diferenças são especificidades culturais do capitalismo nos dois países, o que quiz fazer aqui foi apenas um exercício de historia comparativa do tempo presente.

Um comentário:

  1. nossa, muito bom, ultimamente andei pensando neste mesmo assunto, e o raciocínio foi praticamente o mesmo

    imagine se todas as torcidas organizadas do país se unissem e marchassem para Brasília a fim de exigir mais competência daqueles que deveriam nos representar?

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